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Os óculos perdidos, fugas e o homem do oxigênio: um testemunho sobre saúde mental na terceira idade

Ilustração gerada por inteligência artificial com base em instruções do autor, utilizando a ferramenta DALL·E (OpenAI, 2025)
Ilustração gerada por inteligência artificial com base em instruções do autor, utilizando a ferramenta DALL·E (OpenAI, 2025)

Por Irineu Ferreira


Decidi compartilhar uma experiência muito pessoal e que marcou minha vida: o período em que fiquei internado num Instituto de doenças mentais. Esta é uma narrativa de testemunho, uma forma de literatura que busca relatar vivências reais e, quem sabe, ajudar outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes. Minha intenção é que este texto seja leve, honesto e sem a pretensão de magoar ninguém, especialmente em um mundo onde a depressão é uma realidade tão presente.


A doença

Os sinais da depressão são sutis e, muitas vezes, passam despercebidos. No meu caso, além da mania de perseguição e do isolamento, havia uma inquietude constante, uma reclusão que me impedia de sair, e um medo profundo da noite... do escurecer. São detalhes que, hoje, com a clareza que a recuperação parcial me trouxe, vejo como de suma importância para a observação de um processo depressivo. É fundamental que familiares e amigos estejam atentos a esses sinais, pois a intervenção precoce pode amenizar traumas e evitar que a situação se agrave. Lembro-me de que, em um surto gravíssimo, eu não me reconhecia.


A chegada

Cheguei neste Instituto num estado crítico. O local possui pista de atletismo, piscina, cabeleireiro, e uma série de regalias. Fui muito bem cuidado... é importante ressaltar. Entendo que cada família tem sua realidade, mas esses espaços, salvo raras exceções, estão bem preparados. Ainda assim, a mente em crise distorce tudo. Aqui entram os "causos", episódios que hoje compartilho com algumas pessoas do meu círculo de amizade e parecem até cômicos, mas doem e perturbam. Abaixo listo alguns para elucidar a complexidade: 


Os óculos perdidos 

Consegui perder todos os meus óculos! Chegou ao ponto de minha esposa ter que ir à ótica refazê-los usando a última receita. Na minha cabeça, uma senhora lá dentro os quebrava. Eu mesmo achava que todos queriam pegá-los. Certa vez, convencido de que me perseguiam, joguei um par numa moita perto do portão. Corria com os óculos na mão, certo de que eram um alvo.


O homem do oxigênio

Um personagem que me causava desconforto era um que carregava incessantemente um cilindro pequeno de oxigênio para cima e pra baixo. Aquela imagem me intrigava. Relatei a minha esposa que ele me ameaçava, dizendo que ia "enfiar esse gás de oxigênio até o grau 27 na minha boca". Coisas sem sentido, mas que na minha cabeça fragilizada soavam como perigo real. Até hoje não sei quem era ou o que significava aquilo.


As fugas mirabolantes

Planejei fugas absurdas. Pulei portões altos, numa idade em que poderia me machucar gravemente. Numa dessas tentativas, ao escalar o portão, me deparei com uma cena inesperada: uma piscina cheia de pessoas tomando sol de biquíni num dia ensolarado. Outra vez, fiquei escondido próximo ao portão principal, esperando a entrega de um caminhão para "me escafeder". E sempre havia uma moça muito gentil me trazendo de volta. "Seu Irineu, não pode fazer isso", dizia.


A fuga do dentista (ou do meu delírio)

Minha obsessão com a higiene bucal virou um episódio surreal. Reclamava que minha boca "estava fedida". Então minha família marcou um dentista particular na cidade, pois na Clínica não tinha. Disponibilizaram a estrutura. Minha família teve que pagar ambulância, enfermeiro e acompanhante... tudo certinho. Ao chegar ao local, porém, entrei em pânico. O prédio antigo, com suas colunas e arcos, me pareceu um lugar sinistro. Gritei para os enfermeiros: "Aqui não é dentista! Vão fazer experiência comigo... não sou cobaia de ninguém!". Para mim, era um prédio de qualquer coisa, menos odontológico. Dei meia-volta, corri para a ambulância e ordenei: "Volta, pelo amor de Deus! Isso não é consultório!".


O prato vazio e a raiva

Nas refeições, eu era sempre o primeiro da fila. Não conseguia entender o motivo e isso me incomodava. Achava que acabariam arrumando confusão para mim, pois os outros internos poderiam observar um privilégio. Na verdade, descobri depois, era um cuidado com os idosos. Quando entrava, já encontrava meu prato pronto. Mas eu não comia. Olhava meu prato com macarrão e via o do colega ao lado "abarrotado". Devolvia a comida. Fiquei esquelético, um "magricelo de desenho animado".


O labirinto da desconfiança

Minha mente criava armadilhas diárias. Certa vez, decidi ficar parado num corredor por um tempão – um tempão mesmo –, observando o vai e vem da cozinha. Só saí quando o movimento cessou. Mas nada se comparava à fúria que tomou conta de mim noutra ocasião. Explodi: "Caramba, vocês só pensam em comer e tomar remédio aqui? Não é possível!". Eu via aquela multidão de pacientes, repetindo rotinas mecânicas, e isso me incomodava.


Meu protetor

Dividi o quarto com um jovem que se tornou meu protetor involuntário. Tinha um instinto de cuidador. Enquanto eu passava noites grudado na janela, planejando fugas (cheguei a pular dela!), ele vigiava meu desespero. O jovem atencioso rezava por ele e por mim  "Seu Irineu, deita!", pedia. Quando minha agitação aumentava, ele gritava: "Vou chamar o enfermeiro!", ameaçando acionar a equipe de emergência.


A virada para alta hospitalar

Em virtude da minha idade, o tratamento com medicamentos chegou ao limite. Foi quando a psiquiatra sugeriu a eletroconvulsoterapia (ECT). Explicaram que os métodos mudaram, que é seguro e monitorado. Minha família pesquisou muito e autorizou. Após algumas sessões, começou uma mudança significativa. Comecei a ver o lado bom das coisas: "Nossa... a comida aqui é boa!”. “A Cristina da lanchonete me trata super bem!". Até “o cara que me socava no prato" (na minha percepção delirante) virou um "santo" aos meus olhos. A névoa começou a se dissipar.


O alicerce: família e amigos

Nada disso teria sido possível sem o amor concreto. Minha esposa foi me visitar sagradamente em quase todos os dias de visita, sempre trazendo um amigo ou parente. Meus filhos, noras, genros… nunca me deixaram. Lembro que, no auge da depressão, antes da internação, me passava algumas besteiras na cabeça. Passei noites rodando em volta de casa com uma Bíblia na mão, repetindo "Meu Deus é mais forte". A imagem da minha filha longe de casa me segurou: "Se eu fizer algo, como ela vai viver?". A família estruturada faz uma diferença imensa. Uma desestruturada… é mais difícil sair.


A alta e a gratidão

O dia da alta chegou com um susto. "Alta? Como alta?" Não entendia. Não tinha noção do tempo. Minha esposa me disse depois que foram três meses de internação. Mal me lembro da rotina. Mas lembro do alívio. Saí frágil, mas com uma centelha de esperança. Hoje sou acompanhado por um psicogeriatra e um terapeuta. Não estou totalmente restabelecido, tenho muita ansiedade, entre outros "defeitinhos" para corrigir. Sou grato ao Instituto que me acolheu pela seriedade, responsabilidade e competência no cuidado comigo, e com todos os internos. Voltei para minha família, meu porto seguro.


A saúde mental importa

Conto isso não para assustar, mas para alertar. Muitos sinais passam despercebidos: a reclusão, o medo do escuro, a inquietude, o silêncio excessivo. Observem seus idosos... seus entes queridos. A depressão é grave, o que passei foi gravíssimo... um surto onde não me reconhecia. Mas há saída. Com tratamento adequado, apoio profissional e, acima de tudo, muito amor e paciência ao redor, é possível encontrar a luz novamente. Como eu encontrei. Que minha história - com meus óculos perdidos, o homem misterioso do oxigênio e minhas tentativas  de fugas absurdas - sirva de testemunho: a saúde mental importa, o cuidado salva, e a esperança, mesmo quando parece perdida, pode ser reencontrada.

 
 
 

1 comentário


Robson Silva
Robson Silva
5 de jul de 2025

Relato muito importante para conscientizar. parabéns pela força de compartilhar.

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