O bote da jararaca
“Lutei para escapar da infância o mais cedo possível.E assim que consegui, voltei correndo pra ela “. (Orson Welles)
1965 – Que pena, vamos ter que cortar a perna dele!

Pela data você deve estar pensando em uma sessão de tortura nos pavilhões do antigo “DOPS”, exercício comum praticado pela turma da repressão, os caçadores de “comunas”, – tempo complicado. De certa maneira realmente foi uma tortura pelos envolvidos diretamente no “causo”. O local não era uma sala de tortura, mas curiosamente um Hospital!
Sala de aula da 4ª série do antigo Grupo Escolar, – os antigos sabem bem o que é isso, a turma da Pedagogia também, – lição do dia: sobrevivência na Selva, ou melhor, no mato, afinal só tínhamos cerrado, os ecólogos como meu filho Bruno sabem bem a importância do cerrado. Vegetação típica do Município, riqueza imensa, habitat natural de vários animais, entre os quais o quati, tatu, onça, lobo, jaguatirica e…cobras! A jararaca e a coral, – as mais perigosas, temidas por todos, um verdadeiro pesadelo.
Calma, – Sucuri não!
Essa aberração só se encontrava nas beiras do Mogi-Guaçú.
Nossa “querida” professora, – as professoras eram “queridas”, hoje são inimigas, principalmente em algumas periferias (sic); nos ensinava os procedimentos que deveríamos tomar em caso de uma eventual “picada” de cobra. Segundo ela, um procedimento muito simples: consistia em apertar ou comprimir o local do ferimento para tirar um pouco “do veneno”, – em seguida amarrar como se fosse um torniquete logo acima da picada, – isso para o veneno subir aos poucos, e rapidamente procurar socorro, – foi à aula!
Vida tranquila na pré-adolescência interiorana, rotineiramente aulas de manhã, nada de inglês à tarde; informática era coisa de lunáticos, piano, reforço de redação; todas essas obrigações que hoje que não deixam as crianças serem crianças, – raramente existiam! Tempo livre para futebol, empinar papagaio, hoje “pipa”, bolinha de gude, cinco-Marias ou Capitão, ler gibis, rouba-monte. O estilingue fazia um bom estrago (coitados dos beija-flor e das rolinhas). Toda tarde o nosso destino era o “salto” ou a “cachoeirinha”, ali ficávamos até o anoitecer para o desespero de nossos pais, – para escapar da surra só perdendo a janta. A noite não faltava o balança-caixão! Já a peteca era mais complicado, a turma do Bolinha dizia que era coisa da turma da Luluzinha, – vai entender!
A seção de tortura aconteceu em uma dessas tardes, um dos “moleque”, hoje um renomado político da cidade, foi picado por uma jararaca; o terror tomou conta da turma, menos de um que lembrou de prontidão da aula de primeiros socorros, a providencial aula de sobrevivência no mato.
Dito e feito! – espreme o dedo da picada e amarra sua canela!
O Salto, com sua simpática prainha, não era tão longe, mas era preciso “transportar” o envenenado rapidamente!
Mas como?
Elementar! Foi escolhido o moleque mais forte de todos: Aquele “pivete”, hoje um honrado servidor da Prefeitura, – era um guarda-roupa, tinha físico de boxeador. O folclórico motuquense, – simplesmente jogou o “já quase falecido” nas costas como se fosse um saco de batata, escafedeu-se em direção a Motuca sem olhar pra trás, parecendo mais um Manga-larga; e olha que a subida do salto não era para qualquer um não! Mas a sorte ajudou um pouco, logo após a subida principal, conseguiu alcançar uma providencial e salvadora carroça…
Bem! Existem professores e professores; tanto quanto alunos e alunos. A realidade é que o garrote na canela do “ressuscitado” foi tão apertado que sua perna quase gangrenou!
(Artigo publicado no Cenário – Motuca, fevereiro de 2011)





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