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O bote da jararaca

há 11 minutos
3 min de leitura

 “Lutei para escapar da infância o mais cedo possível.E assim que consegui, voltei correndo pra ela “. (Orson Welles)

 

 1965 – Que pena, vamos ter que cortar a perna dele! 


Ilustração gerada por IA
Ilustração gerada por IA

Pela data você deve estar pensando em uma sessão de tortura nos pavilhões do antigo “DOPS”, exercício comum praticado pela turma da repressão, os caçadores de “comunas”, – tempo complicado.  De certa maneira realmente foi uma tortura pelos envolvidos diretamente no “causo”. O local não era uma sala de tortura, mas curiosamente um Hospital!

 

Sala de aula da 4ª série do antigo Grupo Escolar, – os antigos sabem bem o que é isso, a turma da Pedagogia também, – lição do dia: sobrevivência na Selva, ou melhor, no mato, afinal só tínhamos cerrado, os ecólogos como meu filho Bruno sabem bem a importância do cerrado. Vegetação típica do Município, riqueza imensa, habitat natural de vários animais, entre os quais o quati, tatu, onça, lobo, jaguatirica e…cobras! A jararaca e a coral, – as mais perigosas, temidas por todos, um verdadeiro pesadelo.

 

Calma, – Sucuri não!

 

Essa aberração só se encontrava nas beiras do Mogi-Guaçú.

 

Nossa “querida” professora, – as professoras eram “queridas”, hoje são inimigas, principalmente em algumas periferias (sic); nos ensinava os procedimentos que deveríamos tomar em caso de uma eventual “picada” de cobra. Segundo ela, um procedimento muito simples: consistia em apertar ou comprimir o local do ferimento para tirar um pouco “do veneno”, – em seguida amarrar como se fosse um torniquete logo acima da picada, – isso para o veneno subir aos poucos, e rapidamente procurar socorro, – foi à aula!

 

Vida tranquila na pré-adolescência interiorana, rotineiramente aulas de manhã, nada de inglês à tarde; informática era coisa de lunáticos, piano, reforço de redação; todas essas obrigações que hoje que não deixam as crianças serem crianças, – raramente existiam!  Tempo livre para futebol, empinar papagaio, hoje “pipa”, bolinha de gude, cinco-Marias ou Capitão, ler gibis, rouba-monte. O estilingue fazia um bom estrago (coitados dos beija-flor e das rolinhas). Toda tarde o nosso destino era o “salto” ou a “cachoeirinha”, ali ficávamos até o anoitecer para o desespero de nossos pais, – para escapar da surra só perdendo a janta. A noite não faltava o balança-caixão!  Já a peteca era mais complicado, a turma do Bolinha dizia que era coisa da turma da Luluzinha, – vai entender!

 

A seção de tortura aconteceu em uma dessas tardes, um dos “moleque”, hoje um renomado político da cidade, foi picado por uma jararaca; o terror tomou conta da turma, menos de um que lembrou de prontidão da aula de primeiros socorros, a providencial aula de sobrevivência no mato.

 

Dito e feito! – espreme o dedo da picada e amarra sua canela!

 

O Salto, com sua simpática prainha, não era tão longe, mas era preciso “transportar” o envenenado rapidamente!

 

Mas como?

 

Elementar! Foi escolhido o moleque mais forte de todos: Aquele “pivete”, hoje um honrado servidor da Prefeitura, – era um guarda-roupa, tinha físico de boxeador. O folclórico motuquense, – simplesmente jogou o “já quase falecido” nas costas como se fosse um saco de batata, escafedeu-se em direção a Motuca sem olhar pra trás, parecendo mais um Manga-larga; e olha que a subida do salto não era para qualquer um não! Mas a sorte ajudou um pouco, logo após a subida principal, conseguiu alcançar uma providencial e salvadora carroça…

 

Bem! Existem professores e professores; tanto quanto alunos e alunos. A realidade é que o garrote na canela do “ressuscitado” foi tão apertado que sua perna quase gangrenou!

 

 (Artigo publicado no Cenário – Motuca, fevereiro de 2011)



 
 
 

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