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Chico e a lagartixa beijoqueira

Atualizado: 4 de out. de 2025

Ao chegarmos a Manaus, fomos recebidos com festa no aniversário da pequena Tetê.". Foto: Reprodução
Ao chegarmos a Manaus, fomos recebidos com festa no aniversário da pequena Tetê.". Foto: Reprodução

Na última quinzena de agosto de 2025, voltamos à cidade de Manaus. Voltamos pela saudade da floresta, de seus imensos rios e, principalmente, por nossa filha mais nova, que fez do Amazonas sua casa. Tomamos um voo em São Paulo depois de sair bem cedo de casa. O voo seria direto, sem conexões. Seria… o que não foi.


Quando já estávamos bem próximos do destino, percebemos que o avião voltou a subir e, logo, o comandante avisou que teríamos que aterrissar em Boa Vista, capital de Roraima, setecentos a oitocentos quilômetros a mais da rota inicial. Explicou que um avião de pequeno porte havia tido problemas no aeroporto de Manaus e estava impossibilitando a aterrissagem de qualquer outra aeronave.


Imaginem quem estava esperando a chegada do voo, recebendo notícias de que um avião teria caído na aterrissagem, mas sem clareza se era pequeno ou grande, muito menos de onde estava vindo. Dá até para imaginar o desespero. As informações eram cada vez mais confusas. Até que se acertou: não era o avião da Latam (em que estávamos). Então, os que aguardavam nossa chegada se tranquilizaram.


Mas, para mim, particularmente, em meio a esse episódio, veio à mente um romance de Chico Buarque de Hollanda, o grande escritor, intitulado Budapeste. Nele, Chico sai de Istambul, na Turquia, com destino a Frankfurt, na Alemanha, e depois ao Rio de Janeiro. Mas houve uma denúncia de bomba no voo e ele teve que descer em Budapeste, na Hungria, que dá nome ao livro. Não vou me estender nisso. Quem quiser mais detalhes é só ler o livro.


Eu e mais 215 passageiros tivemos que pernoitar em Boa Vista. No dia seguinte, antes do voo para Manaus, resolvemos fazer um tour rápido pela cidade. Descobrimos que Boa Vista é uma capital muito interessante, a começar pelo rio que margeia a cidade, o Rio Branco.


Boa Vista é um exemplo de cidade limpa, com ruas e avenidas planejadas, parques e jardins que prendem a atenção. Uma curiosidade: a cidade tem apenas um edifício. Por ser fronteiriça com a Venezuela, onde há muita imigração, perguntei quantos imigrantes havia. Disseram que havia por volta de sete mil, o que faz desta capital um espaço de muitas trocas culturais. Fomos embora com gostinho de quero mais, quem sabe em outra oportunidade! 


Enfim, voltamos a Manaus, que é o tema desta narrativa. Fomos recebidos por um grande grupo de pesquisadores, estudantes de mestrado e doutorado — o grupo da minha filha. Eles nos aguardavam no aniversário de uma criança muito esperta, a Tetê, de cinco anos, filha de um casal de pesquisadores que trabalham com conservação da Amazônia. Mesmo com o atraso de quase meio dia, esperaram nossa chegada para cantar parabéns.


Enquanto não chegávamos, não se cantou. Ficamos muito lisonjeados com isso.

E, além do aniversário, havia samba. Um grupo de amigos que sempre se reúne, com violão, triângulo, pandeiro e, surpreendentemente, uma harpa. Um rapaz tocava maravilhosamente bem. Foi emocionante — o ápice da festa da Tetê.


Nos dias seguintes, pegamos um pouco de praia nas margens do rio Negro. É possível caminhar pela faixa de areia branca banhada por águas deliciosamente mornas. Foi numa caminhada que conhecemos a Praia do Índio, linda, mas de difícil acesso (só por veículo 4x4 ou andando). Fomos também à popular praia da Lua. Para chegar até ela foi preciso pegar um barco de linha. Pudemos ver de perto algumas pequenas comunidades pelo caminho. Mas o melhor das praias são as comidas, com os peixes como principais especialidades: matrinxã com farofa de banana, tambaqui na folha e muitos temperos.


Em um dos dias, visitamos o Museu do Seringal, uma réplica de fazenda construída para a gravação do filme A Selva. Hoje, a prefeitura cuida do espaço, que mostra em detalhes o ciclo da borracha, em que apenas o coronel se beneficiava. O trabalhador, em geral nordestino, mal ganhava para pagar a vendinha do próprio coronel. Vivia em situação análoga à escravidão. Muitos morriam de febre amarela ou picada de cobra. Minha filha diz que hoje os seringueiros têm outra vida, cuidam da floresta e têm sido valorizados por isso. Ainda bem! 


Outro ponto que sempre voltamos é o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), onde visitamos o Bosque da Ciência pela primeira vez. É um espaço de divulgação científica, educação e lazer. Ali os pesquisadores explicam suas pesquisas com exposições. Tem até uma sala escura para a gente ouvir os sons da floresta. Uma experiência memorável. Na hora da fome, Manaus tem a peixaria do Jokka (com dois “k”), de frente para o Rio Negro. O restaurante Caxiri também é uma ótima pedida: fica ao lado do Teatro Municipal. 


Fomos também ao Biatuwi, uma casa de comida indígena, o primeiro restaurante idealizado e gerenciado por indígenas do Brasil, conduzido por integrantes de duas etnias. O espaço é compartilhado com o Centro de Medicina Indígena, sempre com um benzedor presente. Ali se come bem e já sai curado! Esse espaço fica ao lado do Mirante Lúcia de Almeida, o ponto mais alto de Manaus. Não podíamos deixar de voltar a um restaurante flutuante, sustentado por troncos que não afundam, onde funcionam também postos de gasolina, escolas, áreas de lazer e moradias.


Para quem gosta de boa música, recomendo o restaurante e bar Chão de Estrela, fácil de encontrar no Google. Há 25 anos, um grupo de senhores toca ali, chorinho e samba: Pixinguinha, Waldir Azevedo e Chiquinha Gonzaga. Uma preciosidade para os amantes da música brasileira.


Encerrando a estadia, fomos ao CEASA, feira municipal dedicada à venda de peixes. No fim da avenida há uma balsa que faz a travessia para a rodovia 319 que vai a Porto Velho. De um lado, Manaus. Do outro, a estrada. Dizem por lá que a estrada é quase toda de terra, só dá para usar na estação seca, são 885 km de aventura. 


Voltando de um dos passeios, presenciamos uma cena inusitada. Dois motoqueiros, sendo um na garupa, começaram a acompanhar um caminhão que parecia ser de feira livre. De repente, o da garupa conseguiu alcançar um cacho de bananas, arrancou uma penca inteira e voltou tranquilamente para a moto. Foi uma cena de louco: em meio a todo o perigo ao redor, eles conseguiram, com destreza, passar a mão no cacho de bananas e seguir viagem como se nada tivesse acontecido.


Mas vocês devem estar se perguntando: e a lagartixa beijoqueira? Explico: é uma variedade muito comum em Manaus. Elas estão em todos os lugares, conhecidas pelo som que emitem: idêntico a vários beijos estalados ou ao barulho de quem suga caldo de cana.

No momento é isso. Um grande abraço!


 
 
 

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