Último trem
- Redação

- 5 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Motuca surgiu entre 1892 e 1893. O vilarejo já tinha algumas casas quando um ramal ferroviário passou por aqui. O trecho ligava a cidade de Rincão a Bebedouro, conectando também Guariba e Jaboticabal. Era uma sensação agradável viajar de trem por essa região: os trilhos cortavam campos, cerrados, matas virgens, alguns rios e suas pontes de ferro. Uma belezura.
Os jovens desciam até a estação todos os dias só para ver o trem parar... e alimentar sonhos. Depois voltavam para a praça da matriz, sentavam nos bancos de madeira com coqueiros ao lado para uma eventual e discreta paquera: o ir e vir (footing). Passear ou estudar usando o trem era fantástico. Eu, particularmente, viajava na primeira classe. Meu pai trabalhava na ferrovia, então tínhamos passe livre e todo o conforto da época. Mas como diz o ditado, o que é bom dura pouco.
Para entender melhor o momento: o país vivia em plena ditadura militar, um período difícil para muitos. No final de 1968, surgiram notícias de que, a partir de 1º de janeiro de 1969, o ramal seria desativado. Eram informações desanimadoras.
O governador de São Paulo, Laudo Natel, definiu alguns parâmetros para essa decisão. O povo de Motuca — principalmente os estudantes, que precisavam encontrar outro lugar para estudar — foi muito prejudicado. Ninguém aceitava a situação; e a ditadura não intimidava ninguém por aqui, já que estávamos longe das grandes cidades.
Diante disso, estudantes e outros moradores resolveram tomar uma atitude drástica. No último dia de funcionamento do trem, planejaram apedrejá-lo. Mas, sem controle sobre o que comentavam, a conversa se espalhou rapidamente:
— Vão atacar o trem!
— Quem vai fazer isso?
— Os estudantes, é claro!
O dia chegou. Os inconformados se posicionaram ao longo da linha, em pontos previamente escolhidos. Depois de alguns minutos, a locomotiva apareceu na curva, lá embaixo, apitando e soltando fumaça.

Ninguém ficou sem participar: todos ajudaram a apedrejar o trem. Alguns levavam saquinhos com cocô de cavalo e lançaram bem no meio, onde ficava o vagão dos passageiros. Na parada, o estrago era evidente: muitos vidros quebrados e um cheiro de merda no ar. O maquinista, assustado, gritava:
— Vamos, vamos embora! Esse povo tá louco!
O trem partiu, sem saber que logo após na primeira curva de saída, havia mais gente nas barrancas. Lembro-me de um dos vândalos — na época chamados de comunistas — que, em plena estação, atirou uma pedra na porta da primeira classe. O vidro, todo serigrafado, virou um monte de cacos. E os meus privilégios acabaram ali.
No dia seguinte, os estudantes receberam a visita da lei:
— O senhor deve comparecer à delegacia amanhã, sem falta.
Era para prestar esclarecimentos sobre o ataque. Alguns foram com os pais; outros, apenas com muito medo. Um deles chegou a fazer xixi nas calças. Outro, acompanhado do pai, dizia apenas:
— Não tenho nadinha para falar.
Esse foi dispensado. Depois de várias perguntas, os verdadeiros mentores acabaram aparecendo. Era necessário pagar os prejuízos. O policial escolheu o mais falante para fazer as contas.
— Olha aí, faça os cálculos.
O restante, como já disse, vamos deixar pra lá. Depois de algum tempo, o policial esbravejou:
— E aí? Vai sair ou não vai?
E o rapaz respondeu:
— Poxa, doutor, não vai dar não. A gente iria aprender essa conta semana que vem, mas agora não tem mais trem!
Fim.




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