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Por onde andará o francês?

Atualizado: 16 de ago. de 2025

Ficamos espantados com a semelhança dele com o nosso filho e nos apresentarmos. Foto: Montagem/ilustração
Ficamos espantados com a semelhança dele com o nosso filho e nos apresentarmos. Foto: Montagem/ilustração

Recentemente, talvez, não mais que um mês, em uma roda de prosa entre amigos, nos foi apresentada uma garotinha com apenas 17 anos. Ela veio da República Tcheca e ficou por aqui apenas uma noite. Foi aí que lembramos de um personagem francês que esteve também pela região e por nossa cidade. Ele se chamava Vicent Panzan. A relação entre minha família e ele começou quando ainda morávamos em Araraquara, mas víamos para cá todo final de semana. Foi em um desses bate e volta que o encontramos.


Como o conhecemos

Ele fazia esses intercâmbios típicos dos países europeus, mochilando pelo mundo, e veio parar em Motuca. Em uma festa da cidade, minha esposa e eu o avistamos: um rapazão loiro junto com uma comitiva de autoridades da Prefeitura – onde realizava seus estudos. Ficamos espantados com a semelhança dele com o nosso filho. A curiosidade falou mais alto: fomos até ele para nos apresentarmos.


Hospedando um estrangeiro

Sempre tivemos boa relação com estudantes - até hoje temos um pé na universidade, afinal nossa vida na ativa foi em grande parte neste local; então a ideia de hospedá-lo na nossa casa de Motuca pareceu natural, considerando que ele estava morando no Hotel da cidade. Um copo de Coca-Cola, outro de cerveja e a amizade estava feita.


Parte da família

Uma de suas atividades por aqui era coletar sementes de árvores nativas, que fazia principalmente nos Assentamentos.  Ainda arrumou tempo para dar aulas de francês a uma moça da região. Espero, honestamente, que as aulas tenham sido só do idioma. Com o tempo, ele virou parte da família: e quando dava certo, do café ao jantar, participava da nossa mesa.  Contava de suas aventuras e ria das nossas histórias com um sotaque que tornava tudo mais simpático.


Tumulto após o jogo

Até que um dia fomos convidados para um casamento de amigos em Campinas e decidimos levá-lo conosco. No evento, foi arrastado por uma simpática moça para dançar; e o danado gostou, pois dançou a noite toda. No domingo, resolvemos ir ao estádio da Ponte Preta. Era jogo do campeonato Paulista entre a Ponte Preta x Santos. Não valorizando muito os conselhos da matriarca, e do ex-noivo, que nos alertaram sobre a torcida da Ponte, que era muito “nervosa”. E lá fomos nos. Ficamos do lado da torcida do Santos a pedido do Francês. O Santos ganhou o jogo, A torcida da Ponte ficou uma arara. Na saída, o caos: Fomos literalmente conduzidos para sairmos por uma viela que mais parecia um corredor. Ouvimos um barulho que parecia tiro (ou bomba) logo em frente. O corre corre não demorou, tipo: salve-se quem puder; gente caindo, se atropelando. Pedi para minha filha colocar uma toalha na barriga, simulando gravidez. Ninguém empurra grávida, pensei. Para nossa sorte, a cavalaria e um helicóptero nos salvaram; não sem antes um pequeno arranhão em um dos braços da minha filha. Jurei nunca mais ir a um estádio de futebol.

  

Fiat 147

Mas; e o francês? Sumiu! Gritamos, procuramos, rodamos o estacionamento. De repente, ele saiu debaixo de um Fiat 147. “Como você some desse jeito e não nos ajuda”, questionei. Depois me contou que, no país dele, aprendeu que, em situações de grande confusão, a primeira medida é garantir a própria segurança. “Foi o que eu fiz: me escondi debaixo do carro”, relatou. A verdade é que não podemos ser herois o tempo todo. Voltamos para festa e ninguém falou nada do jogo; para não estragar a festa.


E a caipirinha?

Além do futebol, na gastronomia acredito eu, também não levou boas recordações, exceto a refeição do projeto. Foi oferecido a ele um bife, macarrão e, pasmem: um ovo in natura quebrado e tudo mexido; o que foi apresentado a ele como uma iguaria brasileira, só atrás  da clássica feijoada. Se apreciou ou não, não saberemos tão cedo; ele só perguntou discretamente: - acho está faltando a caipirinha… 


A despedida

Teve uma semana que o francês sumiu, ninguém sabia do Vicent. Reapareceu, e ficamos com vontade de dar uns “cascudos” no seu traseiro. Chegou o dia de ir embora. Decidimos levá-lo até o aeroporto de Cumbica. Fizemos uma pernoite na capital; a intenção foi mostrar um pouquinho da Capital Paulista; seus bares e restaurantes, no que acabamos ficando em um Pub, o que o agradou.  No domingo, no meio do caminho ao aeroporto, pegamos uma chuva torrencial e ficamos ilhados em um  posto de gasolina. O Panzan queria pegar táxi, mas eu disse: "Não, a gente leva você até o fim". A chuva diminuiu e seguimos até o aeroporto. A despedida foi com abraço apertado, já saudoso. Confesso que fiquei preocupado com aquele monte de sacos cheios de sementes. “Isso vai dar confusão na alfândega”, pensei, mas nada aconteceu. Apenas mais um espanto: Um boeing da Alitalia esperava o francês: nunca tinha visto um avião tão grande! Virei pra minha esposa: "Será que esse trambolho, com tanto peso, decola?". Pois decolou. Fez escala em Roma e seguiu pro sul da França, onde morava.


Por onde andará?

As últimas notícias que tivemos dele davam conta de que poderia estar na Nicarágua, casado e com duas filhas. Espero que esteja bem. Por onde andará o francês?


 
 
 

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