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Um artista a frente de seu tempo


Imagine um homem considerado excêntrico para sua época. Alguém que nunca fugia de uma polêmica, sendo então protagonista de várias delas, circulava com figurinos estranhos como luvas xadrez, compra um cadilac verde só porque o carro tinha um cinzeiro, mesmo milionário filia-se ao partido comunista, rompe com esse mesmo partido por causa da sua indisciplina, vai preso por ameaçar alguns colegas de profissão, teve inúmeras amantes, 6 casamentos - sendo um deles celebrado dentro de um cemitério, fica a beira da falência, morre quase esquecido e, no meio dessa agitação toda, protagoniza um movimento importantíssimo para a história cultural do país que abalou a república no começo do século XX.

Essa figura que hoje mais poderia ser um personagem de filme é o escritor, poeta, teatrólogo, jornalista, agitador cultural e um dos patronos da semana de arte moderna de 1922, Oswald de Andrade. Não é exagero nenhum dizer que ele ajudou a cultura brasileira a criar sua própria identidade.

Oswald nasceu numa São Paulo provinciana com cerca de 65.000 habitantes, despida de prédios e sempre a sombra da capital cultural do Brasil - o Rio de Janeiro. Adorador de São Paulo e visionário por natureza, Oswald em 1920 dizia que São Paulo era o futuro e que não podia parar. De lá pra cá São Paulo não parou e hoje é a cidade mais importante do Brasil e da América do Sul. O sonho de Oswald de enxergar na cidade que adorava uma nação dentro de um país acabou sendo concretizado.

Com sua personalidade forte (que muitas vezes ofuscava suas obras) Oswald foi uma das figuras mais desconcertantes da literatura nacional. Fundou revistas, escreveu em vários jornais e, com seus manifestos da Poesia do Pau Brasil e Antropófago pela primeira vez colocou o Brasil a frente das vanguardas mundiais. Contestador da cultura erudita que vigorava nas artes até então, Oswald propunha uma vanguarda que realçasse nossas origens primitivas e nossa brasilidade. Inspirado nos canibais que comiam seus semelhantes não para saciarem a fome e sim para absorver sua inteligência o manifesto Antropófago pregava que a cultura brasileira deveria deglutir a cultura européia para assim criar algo melhor, original e acima de tudo brasileiro, nos livrando assim do eterno complexo de colonizado.

Como Oswald vivia em uma época ainda atrasada para seu tempo interior, tanta ousadia acabou lhe custando caro e ele começou a ser esquecido ainda vivo. Não chegou a conhecer sua consagração como grande escritor. Mas, como todo bom artista nunca morre, seus ideais acabam sendo adotados por várias gerações que o sucederam, como o Cinema Novo e o Tropicalismo.

Texto publicado na edição 33 do Jornal Cenário (Acesse)

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#cultura #anaroma

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