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A canoa do Zé


Poucos sabem, mas há muito tempo era comum em Motuca a construção de canoas entre os pescadores. Geralmente em grupos de ao menos três, deixavam suas esposas e filhos e embrenhavam na mata de onde não saiam antes de uma semana. Ao encontrarem a árvore adequada, era logo derrubada e iniciavam o exaustivo trabalho. Pronta, a canoa era arrastada por bois até o rio mais próximo.

Como não encontrou ninguém para ajudá-lo, Zé Fonseca, pescador de renome da época, decidiu certa vez fazer o serviço sozinho. Dias antes, topara com um belo pé de cedro em uma mata próxima que serviria para construir uma canoa de uns sete metros.

No quarto dia de construção, com o sol já se escondendo, um homem bem magro e de grande estatura apareceu sorrateiramente. “Posso passar a noite com você?”, perguntou. Mesmo com receio, Zé Fonseca autorizou a permanência.

Logo após se alimentarem, decidiram dormir. Como era muito religioso, o pescador iniciou uma reza e, para sua surpresa, observou que o estranho começou a ficar inquieto. Zé ficou ainda mais desconfiado quando tirou um rosário de seu borná e percebeu o olhar de repulsa do sujeito.

“Deve ser uma alma penada”, imaginou. Temendo o perigo, resolveu planejar algo para se safar. “Estou com um pouco de frio, por isso irei dormir dentro da canoa”, falou à suposta alma penada, depois de apontar para a árvore em adiantado estado de lapidação.

No entanto, de forma sorrateira, Zé deu a volta na canoa e se escondeu atrás de uma árvore, de onde poderia espiar o comportamento do estranho sem ser visto. Passado algum tempo, viu o sujeito se levantar e se dirigir para a fogueira.

De repente, ergue suas vestes e se revela uma caveira. “Isto é para você aprender a não entrar na mata sozinho e a não desafiar as forças da escuridão”, gritou, para logo em seguida jogar uma tocha incandescente dentro da canoa.

Quando percebeu que o pescador não estava lá, a caveira ficou furiosa e começou a quebrar toda a canoa. O pescador aproveitou e foi correndo para casa, para nunca mais voltar. Nestes dias fiquei sabendo que encontraram uma canoa em um manguezal próximo a Motuca, com manchas de fogo e toda quebrada. Desconfio que seja a do Zé.

Texto publicado originalmente na 42ª edição do Jornal Cenário

Acervo completo do periódico


#cultura #causos

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