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Política como na Grécia antiga


De acordo com o cientista político Milton Lahuerta, professor doutor de Teoria Política da Faculdade de Ciências e Letras (Unesp) de Araraquara, em cidades pequenas como Motuca ainda é possível realizar política como na Grécia Antiga, onde o povo participava de forma efetiva das principais discussões sobre o futuro da sociedade. Desta forma, segundo ele, reduziria o limite para a prática da política profissional, representativa, como é realizada atualmente. Lauherta demonstra ainda necessidade da criação de uma agenda positiva, no sentido de estimular o debate entre os vários setores sociais sobre os temas mais importantes que envolvem a cidade para obter melhorias a médio e longo prazo. Leia abaixo a entrevista completa.

Poder no centro

A política foi criada pelos gregos a partir da ideia de que o poder não está no vértice de uma pirâmide, mas no centro. Até então, a justificativa predominante era a da influência divina. Este conceito social orienta o mundo ocidental até hoje, onde a existência de uma praça no centro de cada cidade simboliza o espaço público idealizado pelos gregos denominado “Ágora” para as realizações de discussões coletivas para a conquista da “boa vida”, ou seja, do bem estar comum. Desta forma, ampliou-se o demo (povo), ao criar condições para que mais pessoas atuassem nas decisões sociais importantes. Àqueles que se recusavam a participar eram chamados de “Idioté”, por causa do desinteresse coletivo e por se conformarem com a falta de liberdade.

Política profissional

Na sociedade moderna, com a consolidação do sistema capitalista, que desencadeia a maximização constante de benefícios próprios e desencoraja o indivíduo a se interessar pelas questões coletivas, a forma grega clássica de fazer política foi substituída pela política profissional, de representação. Este é um fato irreversível, até mesmo porque é impossível deliberar discussões como na Grécia antiga para uma sociedade com uma população extremamente maior.

“Curto circuito”

O conceito de liberdade da sociedade moderna não valoriza a participação na vida pública. Ao contrário, leva o indivíduo a acreditar que ser livre significa usufruir a vida privada. Desta forma, consolidou-se a concepção do pensador italiano Nicolau Maquiavel, de que “a política é uma atividade que busca fundamentalmente atingir o poder”. No entanto, independente da escolha partidária e da ideologia, a política profissional funciona em constante “curto circuito”. Por isso, não é raro vir na cabeça de muitas pessoas a necessidade de se resgatar a participação, entendida no sentido grego, dos indivíduos saírem de suas vidas privadas e passarem a atuar diretamente no processo de tomada de decisões.

Mobilização

Em uma cidade pequena, como Motuca, isso seria razoavelmente possível de acontecer. Um espaço onde ainda existe a possibilidade de mobilizar a população para as questões mais importantes, o que reduziria o limite para a prática da política profissional. Deste modo, desencadearia uma relação mais virtuosa e promissora entre o que é típico do mundo moderno, que é a política representativa, do que é próprio do mundo antigo, que é a busca pela “boa vida”. Para chegar a este propósito, no entanto, é necessário que exista um ambiente favorável para a discussão e que os cidadãos se disponham ao aprendizado político e queiram participar.

Agenda positiva

Outro ponto fundamental é que os vários setores da cidade, e não apenas o político, contribuam para a criação de uma agenda positiva, a partir da discussão sobre os pontos mais importantes que a envolvem como na educação, saúde e meio ambiente para obter melhorias numa perspectiva de médio e longo prazo. Saber se estes temas estão sendo debatidos pelo legislativo e como estão sendo feitas as escolhas pelo executivo. É fundamental que a atuação dos poderes responda aos interesses da população.

Desmotivação popular

A constituição brasileira prevê vários mecanismos de participação, mas a população não se vê motivada a participar. O espaço para a política democrática está reduzido. Além disso, falta capacidade para os cidadãos pensarem adequadamente as questões políticas. Como não existe esta conscientização, fica mais fácil a manipulação da sociedade pelos políticos profissionais a partir do jogo do “toma lá, dá cá”. É preciso buscar essa participação não para que as pessoas abdiquem de seus interesses, porque isso seria algo absolutamente utópico, mas para que sejam capazes de fazer aquilo que o pensador francês Alexis de Tocqueville definiu como “interesse bem compreendido”, no sentido de levar em conta o que seja bom para todos.

Experiências inovadoras

Este caminho, no entanto, requer educação política, que se faz fundamentalmente a partir do aprendizado (não somente da escola), do debate e do contraditório. Por intermédio desta interação social, é possível gerar experiências inovadoras, que serão posteriormente transferidas paras as próximas gerações.


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